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É
claro que eu gostaria de estar vivendo em Saurimo. Não a
Saurimo de agora. A Saurimo que conheci ainda criança. A
Saurimo de meus pais. A Saurimo de minhas lembranças, de minha
saudade.
Não pode ser. Este sonho não poderá se realizar jamais. Não com essa
guerra que persiste até hoje. E mesmo que essa guerra
termine, não terei nunca mais os meus amigos, a minha escola,
os meus vizinhos, o meu cachorro, as festas, o clube. Enfim, nunca
mais terei isso novamente.
Desde que
saí de Angola sonhei como seria reencontrar estas pessoas.
Felizmente a internet está me dando a oportunidade que
sonhava O
primeiro angolano que reencontrei foi o Delfim. Que bom. Não era um
menino que andava e brincava comigo e meus amigos, pois era bem mais
novo que eu. Na verdade eu estudava com seu irmão, Zé Corral, mas
lembro-me muito bem do Delfim ainda menininho. Sua mãe ia muitas
vezes à minha casa comprar as verduras que minha mãe plantava em
nosso quintal. Lembro-me muito bem dela. Dela e de seu pai, o
"seu" Corral, companheiro de caçadas de meu pai. Que bom
reencontrá-lo. Esse
reencontro me deu mais alegria e mais esperança para
continuar esta página. Esperança de reencontrar as pessoas que
fizeram parte de minha vida e de conhecer novos amigos angolanos
como o Amilcar, que hoje vive na minha cidade, e me dá notícias
de Saurimo. Infelizmente não são as notícias que esperei por
anos. Do
mesmo modo que reencontrei amigos, quero que este site sirva para
outros angolanos como eu reencontrarem seus amigos
também.
Portanto, o principal objetivo deste site é o reencontro dos
Retornados. Não
quero, com as críticas que porventura aqui forem feitas, ou
comentários de pessoas em meu livro de visitas, que estas
páginas sejam vistas ou usadas como forma de crítica política
ao atual governo. Não quero que ela sirva para incentivar revoltas,
ódio, movimentos contra ou a favor dos grupos que ainda continuam
brigando, sabe-se lá por qual ideal. Que pena,
quantos angolanos como eu estão sendo mutilados ou
mortos. Este
site não está ligado e nunca estará, a movimentos políticos, ONGS,
ou quaisquer outros grupos, sejam quais forem suas intenções,
tendências, ideais
ou objetivos. Este
site está e sempre estará ligado aos angolanos que se viram,
como minha família, obrigados a deixarem seu passado, sua história e
sua pátria, para começarem novamente uma vida em outro
lugar. Quero
deixar aqui registrado o meu apelo á PAZ em Angola. Que meus irmãos
angolanos possam viver sem medo, sem fome e sem tristezas, em
Angola ou qualquer outra parte do mundo.
Angola, eu te amo

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